segunda-feira, fevereiro 21, 2005

A primeira referência no ficheiro cerebral … “you must remember this…..”

O Bogart e a Ingrid Bergman, uns franceses com porte ridículo e uns marroquinos tipo “Lawrence da Arábia”; o aeroporto, a chuvinha, o lenço e o sorriso do Armstrong, porque, enfim, sempre gostei de “standards”, embora esteja longe dos meus favoritos.

Mas eis que a realidade contrasta definitivamente com a visão do cineasta. O filme foi rodado noutras paragens e apenas se pode encontrar um café com o famoso nome: Casablanca e não Ricks Bar, mas abastado em referências ao filme (fotos e quejandos). E claro está, um proprietário desejoso de enganar o próximo: - Ah mas claro! O Bogart e as filmagens, e etc.
Mas a verdade é que a Casablanca já não está tão branca assim e a sujidade é uma mancha indelével na paisagem. E o cheiro, forte e nauseabundo, espalha-se por todo o burgo. Duvido que alguma vez a tenham conseguido fazer branca. Para mim será sempre Casabeije.
Desprezado, o Beije tem sido tratado como uma cor de segunda, um branco sujo. Talvez branco manchado pelo pecado. Porque razão a cor do amor não pode ser o beije? Há vermelho no amor, há branco, há rosa – cor igualmente de mistura, ou diluição. Há também o negro e o cinza, mas beije, eventualmente no vestido da noiva ou na camisa do futuro esposo, mas assumido, nunca vi.

E no fundo há ironia nesta ausência: Pode beijar a noiva, diz sempre o oficiante no ponto crucial da cerimónia. Está presente mas não se assume.

Casablanca é um misto de encanto e desespero, de projecto de cidade que podia ter sido bela. As gentes são gentis como sempre, prestáveis – demasiado prestáveis – e cansam de tanto querer comunicar, explicar as tristezas e alegrias do local. É difícil estar só nesta cidade. E apesar de se respirar o ambiente cosmopolita das grandes cidades do mundo – cosmopolita, curioso qualificativo que mais não é do que o direito de se sentir abandonado à sua sorte no meio de estafantes multidões – há sempre alguém a encaminhar-nos, a dizer por aí não, talvez por aqui, a oferecer, diligentes e impositivos, o Rolex e o Cartier, os inefáveis óculos Rayban e outras marcas igualmente pejorativas. O Made in China do nosso quotidiano global.

O trânsito é qualquer coisa de inexplicável. Como em Argel ou no Cairo. O conceito de trajectória imprevisível, o princípio da incerteza de Heisenberg, deve ter sido uma iluminação do dito senhor depois de visitar estas terras da moirama. Enunciemos então este princípio e avaliem se tenho ou não razão: “ …é impossível determinar com precisão e simultaneamente, a posição e a velocidade de uma partícula. É possível aumentar a precisão na determinação de qualquer uma delas, individualmente (velocidade ou posição) mas à medida que se aumenta a precisão de uma decresce a precisão da outra. Restam-nos assim e apenas, critérios puramente probabilísticos para determinar a posição e velocidade de uma determinada partícula. Só quando as partículas chocam, com libertação de energia é que se consolida o conhecimento da posição e velocidade em simultâneo…”. Ou seja a posição e velocidade das carripanas que se movem no caótico trânsito Casablanquense são impossíveis de determinar com precisão e só quando se espatifam as carretas é que nos é possível consolidar o conhecimento destas variáveis, e das outras que dela decorrem: choros convulsivos e preces histéricas, discussões infindáveis, atributos místicos e desígnios misteriosos do encontro metafísico entre dois objectos rolantes, ausências de seguros e outras surpresas reservadas aos viajantes menos avisados.

Mas desenganem-se. Feridos ou mortos raramente os há e se outra prova não bastasse da existência de Deus (sentido lato para os monoteístas) bastaria confrontar as estatísticas da sinistralidade automóvel em Casablanca (leia-se número de feridos e mortos em acidentes rodoviários) com a realidade caótica do trânsito.

E o diabo de Maxwell só não nasceu aqui porque essa história de andar a catar moléculas dá trabalho (ou não negasse ele a 2ª lei da termodinâmica). E trabalho, bom, no sentido ocidental do termo, isto é, actividade produtiva decorrente da aplicação de uma determinada quantidade de energia, é coisa de que a mouraria não quer ouvir falar. Despender energia concerteza. É sempre abençoado por Deus aquele que investe numa actividade. Agora ousar produzir alguma coisa material com a dita actividade, dar-lhe um sentido objectivo, um fim que não seja insondável e algo metafísico, isso é absolutamente destituído de sentido.

Deixemos os fumos das ruelas…

Se se vai ao mercado a coisa muda. O cheiro – mau ou bom – é genuíno. Cheira à infância perdida das idas ao Bolhão. E a cor é um deslumbramento. Se alguma paternidade mundial pode ser assumida por esta terra, deve ser a da cor. Da sua intensidade e luz. Do esplendor cromático dos mercados matinais.

Casablanca não tem muita história. Não é cidade imperial. Tem apenas de seu a expressão da arrogância do rei defunto, a Mesquita da qual desfruto do escritório empoleirado de um arrogante 20º andar, uma visão magnífica e aterradora. Diz-se que o foco laser de que a dotaram foi desligado por interferir com a navegação aérea. Bem talvez quisessem chegar a Allah. Presumo que habitará no céu, como o nosso Senhor Jesus Cristo e restante corte celeste. Afinal espaço ao espaço não falta. Podem conviver no céu todos estes variados deuses.

Até à vista,

…e paz na terra aos homens de boa vontade.

P.S.
Desligado? Bah, provavelmente avariou! E como sempre arranjou-se, à pressa e mal amanhada, uma desculpa de um qualquer Djinn (Diabo pequenitates e traquina muito abundante nestas terras da moirama) para operar o milagre de extinguir o foco e impôr o seu desígnio transcendente.